Lista Indicativa do Património Mundial de Portugal
O conjunto monumental das Termas Medicinais Romanas e Ponte Romana de Trajano possui um raro significado simbólico, conferido pela beleza, imponência e efeito cénico resultado da sua contiguidade física.
As Termas Medicinais Romanas e a Ponte de Trajano são um testemunho inegável da importância e veemência da presença romana nos confins da Finisterra, parcela do Império mais longínqua, a ocidente. Estes vestígios arqueológicos, apenas comparáveis com um número restrito de outros bens localizados em diferentes geografias do Império Romano, podem contribuir, na sua singularidade, para o engrandecimento e a universalidade da Lista do Património Mundial.
As diversas componentes e vestígios que o conjunto patrimonial reúne constituem exemplares distintivos e excecionais do legado do Império Romano neste território ocidental. O sistema de abastecimento de água das termas medicinais, ainda em condições de funcionamento originais, assume um carácter único. Vários vestígios de artefactos, incluindo o exemplar de um Pyrgus, conservados de forma invulgar, permitem explicar e representar as práticas sociais e culturais da época. A relação entre o complexo termal, o ninfeu, a ponte e o rio, é bem ilustrativa da estratégia romana de construção do Império, assente não apenas na transferência de conhecimento e na capacidade de exploração de recursos, mas também em aspetos de natureza social, cultural e simbólica.
O Padrão dos Povos, localizado na ponte pétrea, constitui um elemento raro e distintivo no contexto mundial, de integração humana e cultural, porquanto demonstra a tolerância do ocupante quanto à integração de cultos, tradições e identidades dos povos indígenas.
Um Conjunto Monumental dois Bens: a “Ponte de Trajano”
O elemento arquitetónico que mais sobressai na cidade é, sem sombra de dúvida, a Ponte de Trajano, cuja construção marca um período de excecional desenvolvimento urbano. Nas imediações do complexo balnear, localizado na margem direita do rio Tâmega, a ponte pétrea preserva a sua vetustez original, referência da sustentabilidade desde há 2000 anos.
O monumento possui uma qualidade arquitetónica notável e reconhecida e traduz de forma clara as capacidades do engenho romano ao nível da construção de infraestruturas.
O "Padrão dos Povos", uma das duas colunas dispostas no imóvel, é um marco raro no elenco de povos indígenas em contexto romano. Trata-se de um tributo à hierarquia imperial, na pessoa de Vespasiano e descendentes, e uma reminiscência do mosaico de culturas matizado sob a hegemonia de Roma.
A raridade deste elemento epigráfico no contexto mundial, que refere os povos indígenas existentes, reforça a singularidade da Ponte de Trajano e do conjunto patrimonial. O contributo multicultural celebrado no "Padrão dos Povos", constituiu um dos alicerces para a subsistência da ideia de um Império único, organizado em províncias para efeitos de boa gestão, com tradução nas ideias transmitidas nas epígrafes nele gravadas.
Um Conjunto Monumental dois Bens: as “Termas Medicinais Romanas de Chaves”
A água, elemento fundamental para a vida, na Antiguidade como no tempo atual.
A escala das Termas Medicinais Romanas de Chaves e a raridade dos vestígios encontrados fazem delas um testemunho da maior relevância para o estudo e caracterização da civilização romana e das práticas sociais, culturais e construtivas que ela protagonizava. Alguns dos seus elementos, pela sua raridade, qualidade e integridade, diferenciam este complexo termal de alguns outros com origem na mesma época e localizados em território que foi outrora Império Romano, reforçando a sua singularidade.
O sistema hidráulico de circulação da água, na sua conceção e construção, representa uma extraordinária obra de engenharia hidráulica. As características formais e técnicas e os materiais utilizados nas várias componentes funcionais do edifício termal enquadram-se num momento de grande desenvolvimento da arquitetura e engenharia hidráulica romanas, designadamente aplicadas à construção de termas medicinais. Da transformação do complexo termal inicial, surgem as termas medicinais, nas quais foram desenvolvidas algumas soluções específicas que lhes acentuam a notoriedade. Destacam-se, em particular, as soluções técnicas para evitar a contaminação das exsurgências mineromedicinais, para permitir a manutenção dos fluxos de água através de um sistema de gravidade aplicado ao abastecimento, circulação, limpeza das piscinas e escoamento das águas para o rio e, por último, para assegurar o controlo das temperaturas da água, adequadas aos diferentes tratamentos que eram prestados.
Acresce o estado atual de preservação do sistema hidráulico, que constitui uma raridade. Permanecendo, na sua maioria, soterrado desde o final do século IV, constitui um exemplo notável de funcionamento e conservação de estruturas hidráulicas romanas originais, com soluções adaptadas ao contexto específico das Termas Medicinais de Chaves. Em comparação com outras termas e balneários, de origem romana, que, ou por destruição, ou por transformação ao longo dos séculos, perderam praticamente toda a estrutura original, as Termas Medicinais Romanas de Chaves adquirem excecionalidade.
Por outro lado, a existência de um pavimento em madeira numa das piscinas de maiores dimensões, que impedia os utentes de entrarem em contacto direto com a água nas temperaturas mais elevadas, confere igualmente ao complexo termal de Aquae Flaviae um carácter único. Tal solução, hoje patente na existência dos 40 pilares de granito, que dão ao grande tanque uma imagem singular, remete-nos para o conhecimento da época em termos das condições de transmissão térmica e para a inovação tecnológica. Mais próximo deste tipo de piscina, existe uma única nas termas taurinas (de Trajano) em Civitavecchia, que teria um pavimento sobrelevado em pedra (ainda que hoje não sejam visíveis, essas estruturas foram identificadas no período de escavação arqueológica do complexo).
© Maratona de Arqueologia Virtual 2022
Centro de vida social
Apesar da designação de termas medicinais, o uso do complexo balnear de Aquae Flaviae extravasava muito o objetivo terapêutico, configurando um espaço na urbe de encontro e convívio social e intergeracional. Os achados arqueológicos, em condições especialmente bem preservadas, vêm-no comprovar.
As escavações já realizadas permitiram recuperar um espólio constituído por peças raras, de grande valor científico e em surpreendentes condições de preservação. Este notável conjunto de peças remete para o quotidiano social dos aquistas, que afluíam para tratamento e para as atividades de lazer e lúdicas, naturalmente também associadas a estes espaços.
Um dos achados que revela as atividades desenvolvidas pelos aquistas é o interessantíssimo Pyrgus. Trata-se de uma peça notável e rara, executada segundo uma técnica de recorte da placa metálica de forma a criar padrões geométricos ou vegetalistas complexos, incorporando inscrição alusiva à aleatoriedade do lançamento dos dados e à oficina onde foi produzida a peça.
O Ninfeu, junto ao complexo termal, vem acrescentar ao conjunto monumental, uma outra importante dimensão, religiosa, porquanto testemunha o culto dos romanos às águas e ao seu poder de cura.
Escala
Chaves partilha com outras cidades termais a monumentalidade do conjunto termal medicinal. Essa monumentalidade e a área relativa que esse complexo ocupava – cerca de um quinto da cidade romana - refletem o importante papel que as termas tiveram na formação e desenvolvimento de Aquae Flaviae. Tal como em outras grandes estâncias termais do Império Romano, as Termas Medicinais de Aquae Flaviae tornaram-se uma referência ao nível dos cuidados de saúde, atraindo aquistas provenientes de grandes distâncias para aqui se tratarem.
Esta grande afluência de gentes às termas e o papel da cidade no controlo da mineração e transporte do ouro proveniente das jazidas existentes na região envolvente contribuíram para a importância da urbe, provada pela precoce atribuição do estatuto municipal, pela grande qualidade arquitetónica da sua ponte e pelas evidências materiais que as escavações na cidade têm dado a conhecer.
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O complexo das Termas Medicinais de Chaves é, indiscutivelmente, um expoente de primeira grandeza na arte e técnica de construção deste tipo de equipamentos, o que se torna ainda mais surpreendente nos confins da Finisterra, a parcela do Império mais longínqua a ocidente, onde seria expectável que os valores culturais e a imponência que detinham as edificações no centro do Império se fossem diluindo.
Tem sido possível descobrir afinidades surpreendentes com equipamentos da mesma natureza em longitudes bem afastadas. É o caso das antigas termas romanas de Basilica Therma, situadas no centro da cidade turca de Sarikaya, Aquae Sarvenae durante o Império Romano, localizada no norte da Anatólia central, construídas no século II e utilizadas continuamente durante os períodos posteriores, Bizantino, Seljúcida, Otomano, até à atualidade. À semelhança do conjunto termal de Chaves, as piscinas originais de Basilica Therma mantêm-se em funcionamento. Neste último caso, as piscinas continuam abertas ao público para tratamentos, o que não acontece em Chaves onde o complexo termal foi totalmente musealizado.
À semelhança dos complexos termais, é possível encontrar sinais de ligação entre duas pontes: a Ponte de Trajano, em Chaves, na Península Ibérica, e a Ponte de Justiniano, na Península de Anatólia, também na Turquia. Estas representam dois períodos distintos do conhecimento e da prática, técnicas e de construção do Império Romano, e duas localizações extremas (ocidental e oriental) desse mesmo Império. Por outro lado, a especificidade do "Padrão dos Povos", que marca presença na Ponte de Trajano, acrescenta-lhe uma notável singularidade.
Candidatura
Considerando que a importância cultural do conjunto monumental das Ternas Medicinais Romanas e Ponte Romana de Trajano - classificados pelo Estado Português na categoria de Monumento Nacional - transcende as fronteiras nacionais, o Município de Chaves tomou a decisão de encetar e desenvolver, em colaboração e envolvendo a sociedade civil, um conjunto de iniciativas tendo em vista o seu reconhecimento ao nível internacional, incluindo a desejada inscrição na Lista do Património Mundial.
Após a candidatura, em 2022, formalizada junto do Governo Português e deste junto da Comissão Europeia para atribuição da Marca de Património Europeu, o Executivo Municipal deu início ao processo de candidatura do conjunto patrimonial à Lista Indicativa do Património Mundial de Portugal. De acordo com as orientações do Comité do Património Mundial, a integração na Lista Indicativa do Estado Parte constitui o primeiro passo, obrigatório, para uma futura candidatura à inscrição na Lista do Património Mundial da UNESCO.
Reconhecendo a importância do envolvimento da sociedade civil e a participação da população e de outros parceiros no processo de candidatura à inscrição, o Executivo Municipal avançou com a constituição de uma Comissão de Acompanhamento, de que fazem parte personalidades reconhecidas localmente: Maria Aline Ferreira, Ernesto Areias e Jorge Gualdino Lourenço Melo.
É fundamental que o processo de candidatura do conjunto patrimonial da “Ponte de Trajano” e das “Termas Medicinais Romanas de Chaves” à Lista do Património Mundial venha a envolver toda a comunidade flaviense, que deste modo se reconheça e se identifique com a importante herança cultural da civilização romana neste território e se orgulhe do expoente de primeira grandeza e da singularidade desse legado.
Cartas de Apoio
© Maratona de Arqueologia Virtual 2022
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