O Bem Patrimonial
Chaves preserva um importante legado da civilização romana que, há mais de dois mil anos, se instalou na região, reconhecendo a sua riqueza em recursos naturais, e batizou a cidade como Aquae Flaviae, revelando a abundância e a importância da água, elemento primordial de vida, neste território.
Marcas desse período revelam o excecional sentido estratégico da ocupação romana.
Uma rede de estradas que se estende pelo território conquistado, ligando as principais urbes, e a difusão de práticas culturais gradualmente entranhadas nos povos e nos territórios integrados no Império.
O conjunto monumental, de cronologia romana, localizado em Chaves, junto ao rio Tâmega, inclui a Ponte de Trajano e o complexo das Termas Medicinais de Chaves.
A Ponte de Trajano
A ponte romana de Chaves, conhecida como “Ponte de Trajano”, integrava a designada via XVII do Itinerário de Antonino, lançada por Augusto no contexto das guerras cantábricas para unir as cidades de Braga (Bracara Augusta) e Astorga (Asturica Augusta), com propósitos essencialmente estratégicos, de natureza militar, política e administrativa.
Apesar dos seus quase dois milénios de contínua utilização – encontrando-se atualmente afeta apenas à circulação pedonal, a ponte conserva os traços essenciais da sua estrutura original de tabuleiro plano - com cerca de 140 metros de comprimento - lançado sobre 16 arcos de volta perfeita, em aparelho almofadado rústico, de grande qualidade e vincada natureza arquitetónica romana.
Padrão dos Povos
Constitui um dos monumentos viários romanos mais importantes do território nacional, apresentando a particularidade de exibir – sensivelmente a meio do tabuleiro - duas colunas que ostentam inscrições latinas muito relevantes.
A do lado jusante comemora a construção da própria ponte pelos Aquiflavienses, no tempo de Trajano, entre os fins do século I e os inícios do século II. A do lado montante, designada por “Padrão dos Povos”, contém a referência ímpar a dez civitates ou povos indígenas da região, numa homenagem prestada a Vespasiano, a Tito e à Legião VII Gemina Felix.
O Complexo das Termas Medicinais Romanas de Chaves
O complexo termal romano de Chaves é constituído por vários elementos distribuídos por diversas tipologias e fases cronológicas: Do século I existem vestígios arqueológicos de umas termas higiénicas e de um Ninfeu dedicado às divindades aquáticas, as Ninfas. Entre os finais do século II e o início do século III, ocorreram grandes obras de renovação do complexo, das quais apenas o Ninfeu permaneceu e foram construídas, no mesmo espaço umas termas medicinais, constituídas por duas grandes piscinas e outras de menor dimensão, um pátio ao ar livre (palaestra) e um intrincado sistema hidráulico composto por um reservatório (castellum aquae), com várias condutas de escoamento (cloacae) e de abastecimento que ligam os pontos de captação às piscinas. Todo este novo complexo termal era coberto por várias abóbadas tipo canhão.
As termas higiénicas
Situadas no extremo sul do complexo termal, as termas higiénicas constituem uma estrutura usual em contextos públicos e privados romanos.
Serviam o uso higiénico diário com recurso a água normal - não medicinal - que podia ser aquecida a várias temperaturas para banhos mornos, quentes e de vapor. Tudo indica que estas termas higiénicas tenham sido desativadas ou deslocadas, com a construção do edifício das Termas Medicinais, entre os finais do século II d.C. e os inícios do século III d.C.
O Ninfeu
O Ninfeu, pequeno templo localizado junto ao edifício das Termas Medicinais, expressa a importância da dimensão religiosa associada às propriedades terapêuticas das águas que exsurgem naquele local e seriam certamente já conhecidas e valorizadas pela população indígena, em fase pré-romana.
Construído no século I, é formado por um poço-nascente que veio a ser monumentalizado dentro de uma êxedra já na transição dos séculos II para o III. O poço, em opus caementicium, possui planta retangular (1x1,35m) e apresenta 1,70 metros de profundidade. O seu coroamento é formado por blocos graníticos decorados com cartelas, tendo o da cabeceira um remate em forma de tímpano triangular decorado com rosácea. A água mineromedicinal brota de um orifício localizado no fundo e escoa por outro aberto no topo de uma das paredes laterais, sendo provavelmente usada tanto com fins medicinais como religiosos.
Este pequeno templo, a que se encontra associada a descoberta de duas Aras romanas com inscrições votivas, era consagrado às Ninfas, divindades aquáticas presentes nos rios e nascentes, consideradas habitantes e guardiãs deste lugar telúrico e divino cuja porta de entrada se abria a sul, na direção do rio Tâmega e da ponte que constituía a entrada principal na cidade romana de Aquae Flaviae.
O edifício monumental das Termas Medicinais de Aquae Flaviae
O edifício integralmente dedicado ao aproveitamento terapêutico das águas mineromedicinais que exsurgem no local, a cerca de 70ºC, encontrava-se originalmente implantado a uma cota inferior à da cidade, cerca de 3 metros abaixo do nível da rua ribeirinha que se desenvolvia perpendicularmente à Ponte de Trajano. Esta implantação decorria da necessidade de captar as nascentes hidrotermais e de usar a circulação da água por gravidade.
As nascentes termais e o sistema hidráulico
As Termas Medicinais foram construídas sobre as nascentes de água mineromedicinal de acordo com um criterioso plano de engenharia hidráulica que permitiu realizar a impermeabilização de todo o terreno e erguer o edifício sobre uma espessa camada de opus caementicium, deixando apenas ativos os pontos de captação pretendidos, de forma a evitar contaminações das nascentes pelas águas pluviais ou do rio Tâmega.
No espaço do complexo termal encontram-se identificados quatro pontos de captação e abastecimento das águas mineromedicinais. Um encontra-se estritamente associado ao poço do Ninfeu, tendo funções essencialmente religiosas. Os outros três alimentam o sistema de controlo e funcionamento das várias piscinas que compõem o edifício das Termas Medicinais
© Câmara Municipal de Chaves
O fim das Termas Medicinais
Um forte sismo, ocorrido na última década do século IV, provocou a derrocada de parte do edifício e das grandes abóbadas de cobertura, apanhando desprevenidos os aquistas que acabaram por ficar sepultados sob os escombros.
Chegava assim ao fim o período áureo de funcionamento das Termas Medicinais Romanas que promoveram o aproveitamento de um recurso natural tão marcante no nascimento e projeção da cidade de Aquae Flaviae. Após a derrocada algumas piscinas foram usadas por um curto período de tempo, de maneira rudimentar, tendo sido definitivamente abandonadas no século IX.
Sob os escombros da derrocada provocada pelo trágico acontecimento dos finais do século IV, foi recuperado um conjunto notável de peças arqueológicas, com grande destaque para a raridade das que são constituídas por materiais orgânicos, geralmente perecíveis, como a madeira, o osso, o vime e a cortiça. A camada de lamas, selada pela derrocada, permitiu a sua excecional conservação devido ao ambiente húmido, estável e desprovido de oxigénio em que permaneceram, possibilitando agora o conhecimento de certos aspetos da vida e do quotidiano da época que doutra forma nos estariam vedados.
Em direta relação com o uso da água mineromedicinal, assinala-se a presença de taças de madeira que reproduzem as formas da cerâmica fina da época, de uma ampulla ou cantil em madeira com inscrição de simbologia cristã e de uma garrafa em vidro revestida com cestaria e isolamento em cortiça, certamente associadas à conservação, transporte e ingestão da água medicinal.
© Câmara Municipal de Chaves
Maquete do edifício das termas higiénicas e Ninfeu (século I)
© Câmara Municipal de Chaves
Maquete do edifício das Termas Medicinais (séculos II/III)
© Câmara Municipal de Chaves
Maquete das Termas Medicinais Atualmente
Artigos
Bibliografia